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quinta-feira, abril 27, 2006

Democracia distorcida

Quando pensamos em democracia, lembramo-nos de princípios como liberdade, igualdade, equidade e poder na maioria. Na mundo de hoje são expressões que supostamente para nós, mundo ocidental, não dispensamos e que estão muito em voga na agenda internacional.
Por isso coloco estas questões: Será a realidade aquilo que parece? Actualmente nas ditas sociedades livres vivemos uma democracia plena? Na minha opinião, acho que estamos completamente “cegos” relativamente ao significado do que é uma mundo realmente democrático. Pensamos que estamos inseridos num, mas não! Bem, mas não é sobre este ponto mais geral que pretendo reflectir… deixemo-lo para futuras discussões. O que realmente pretendo abordar neste post é uma das componentes destas mesmas sociedades, mais específicamente a Internet. Viverá ela uma democracia na sua totalidade, ou antes é um reflexo da sociedade e portanto apresenta-se distorcida?
Eu acho que é mais a segunda afirmação! A Internet está embebida numa democracia aparente, onde na teoria se apresenta como bastião da livre expressão de todos e afinal, na prática, é só de alguns.
Costuma-se dizer que uma eleição é validada quando a maioria da população, ou seja, 51% dos cidadãos participam na vida democrática do país. Ora com a Internet acontece precisamente o mesmo: Se mais de metade da humanidade não dispõe de ligação à rede, como pode uma opinião ser validada, ou antes, como pode ter a Internet o poder da maioria? Sabemos que os indíviduos atingidos pela rede são inferiores ao número daqueles que a dispõem, o que portanto nos leva a afirmar que este meio não é uma democracia plena nem legítima.
Outra questão interessante é o aumento da concentração de poder nas mãos de quem comanda a Internet, ou seja, mais precisamente o país que a inventou, os Estados Unidos da América. Ora isto faz-me lembrar outras fases da história da Humanidade em que alguém comandava as vidas dos seus cidadãos através de um poder quase absoluto. Acho que está tudo dito, tirania e controlo ditaturial não combinam com democracia. De alguma forma existe um condicionamento exagerado da informação à disposição na rede. Esta precisa de se encontrar mais descentralizada e deixar de ser tão elitista, ou corre-se o risco de contribuir para o aumento do fosso entre desenvolvidos e terceiro mundo.
O aumento da informação disponível na Internet também não corresponde ao aumento de conhecimento, pois não há partilha por todos. Trata-se de um ciclo vicioso, se as pessoas não dispõem de ligação à web, não trasferem nem partilham experiências ou conhecimento (Info-exlusão). Portanto, os grandes distanciam-se dos pequenos.
Outro ponto que convém referir é o caso do acesso a alguns sites. Se em democracia, a saúde e a educação são tendencialmente gratuitos, porque é que numa suposta Internet democrática devem de existir sites pagos? Não falo só de pornografia, falo muito mais para além disso. Existem de facto sítios de informação com carácter mais cultural, que são pagos. Alguns deles a “preço de ouro”, que nem todos se podem dar ao luxo de frequentar.
Para além de todos os aspectos atrás referidos, há que ter em atenção também a questão da linguagem. Será que a diversidade linguística mundial é tida em conta na Internet? Na minha opinião não! Existe uma hegemonia exagerada da língua inglesa que faz com que a informação não chegue a todas as pessoas, como é regra de uma democracia. Por alguns cidadãos desta "aldeia global" não perceberem este idioma são deixados de lado na partilha de conhecimento. É a chamada exclusão, que significa precisamente o contrário de igualdade, valor central da democracia.
Concluindo, parece-me que a Internet, apesar de podermos nela expressar todas as nossas opiniões, é mais anárquica do que democrática. Trata-se de um meio que viola constantemente o direito à comunicação de todos, não no sentido de não podermos dizer aquilo que queremos, mas antes por não ser a maioria a expressar as suas opiniões. Para além disso não respeita o princípio de igualdade de todas as culturas. Antes promove a superioridade de uma sociedade anglo-saxónica, não tendo em conta a diversidade que caracteriza o planeta.

1 Comments:

Blogger Carla Ganito said...

Um óptimo comentário, reflexo da sua participação nas aulas.

segunda mai. 08, 01:16:00 a.m.

 

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